Nos últimos meses, tenho visto uma corrida quase desesperada para “acelerar times com IA”. Ferramentas de geração de código.
Copilotos para PRs.
Agentes automatizando testes, documentação e deploy.
A promessa é sempre a mesma: mais velocidade.
Mas existe uma verdade que poucos líderes querem encarar:

Se o seu time já sofre com arquitetura confusa, processos burocráticos e falhas de comunicação, a IA não vai salvar. Ela vai expor.

E, em alguns casos, vai piorar


O mito da aceleração

Existe uma narrativa perigosa no mercado:

“Se estamos lentos, precisamos de IA.”

Não.
Se você está lento, provavelmente já está pagando juros técnicos invisíveis há anos.
Arquiteturas frágeis.
Dependências mal definidas.
Ausência de ownership.
Times sobrecarregados por tarefas que nem deveriam existir.
Automatizar esse cenário não gera eficiência.
Gera erro em escala.
E erro rápido continua sendo erro.
A IA não corrige desorganização estrutural.
Ela apenas executa mais rápido aquilo que você já faz, seja certo ou errado.


A pergunta que poucos fazem

Antes de discutir “como codar mais rápido”, a pergunta estratégica deveria ser outra:

O que aqui nem deveria estar no fluxo?

A atividade mais eficiente é aquela que nem precisa ser executada.

Se seu time está:

  • Fazendo retrabalho recorrente

  • Lidando com demandas mal especificadas

  • Corrigindo falhas previsíveis

  • Produzindo documentação que ninguém consome

O problema não é velocidade.
É desenho sistêmico.
Acelerar desperdício é sofisticar o desperdício.


O papel real da liderança de engenharia

Liderança de engenharia não é sobre implementar a ferramenta da moda.

É sobre:

  • Ter sensibilidade para entender a dinâmica real do time

  • Usar dados quantitativos (lead time, cycle time, retrabalho)

  • Usar dados qualitativos (frustração, ruído, desalinhamento)

  • Identificar gargalos estruturais antes de automatizá-los

Automação deve ser consequência de clareza.
Nunca o ponto de partida.
Um líder maduro entende que IA não é solução mágica e sim um amplificador operacional.

Ela amplifica:

  • Times bem organizados

  • Arquiteturas coerentes

  • Processos enxutos

Mas também amplifica:

  • Caos

  • Ambiguidade

  • Falta de governança


IA transforma arquitetura, mas exige visão sistêmica

Sim, IA pode transformar profundamente a forma como construímos software.

Pode:

  • Reduzir tempo de implementação

  • Acelerar testes

  • Melhorar documentação

  • Sugerir refatorações

Mas sem visão sistêmica, vira ruído.
Mais tecnologia não corrige falta de clareza.
Só amplifica.
E quando o ruído aumenta, a sensação de produtividade também pode aumentar — enquanto a qualidade estrutural cai.
Esse é o risco invisível.


Eficiência não vem da aceleração. Vem da simplificação.

No fim do dia, eficiência não é sobre fazer mais rápido.
É sobre fazer menos e melhor.
É eliminar:

  • Complexidade desnecessária

  • Fluxos mal desenhados

  • Reuniões que não agregam

  • Dependências mal definidas

IA é um multiplicador.
Mas multiplicar zero ainda é zero.
Se o seu sistema organizacional não está saudável, a aceleração só tornará isso mais evidente.


A pergunta estratégica para 2026

A discussão não deveria ser:

“Como acelerar com IA?”

Mas sim:

“Estamos usando IA para resolver o problema certo ou apenas para acelerar o caos?”

Os CIOs que entenderem essa diferença não apenas implementarão IA.
Eles construirão organizações antifrágeis.
E isso é muito mais estratégico do que qualquer ferramenta.